O mundo novo e alcançável de Jack

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Imagine viver esta situação: uma jovem é sequestrada quando voltava da escola, e, durante sete anos,  vive isolada em um quarto, enjaulada em um cativeiro já sem esperanças de um dia sair de lá. Ela acaba tendo um filho do sequestrador e, só quando ele completa 5 anos, resolve contar pra ele que existe um mundo cheio de vida do lado de fora das sólidas quatro paredes que os cercam. Até então, o ingênuo menino acreditava (por meio das histórias da protetora mãe) que o mundo real era só aquilo ali. A TV transmitia-se sonhos; fora dali era “apenas” o espaço sideral. A esperança ressurge muito forte quando os dois começam a tramar um plano para enganar o vilão e, enfim, conhecer um novo mundo, ter a possibilidade de viver uma nova história em cenários inexplorados. Esse é o mote do filme “O Quarto de Jack”, do diretor irlandês Lenny Abrahamson, um dos longas mais emocionantes do Oscar de 2016 e que está disponível no canal Telecine.

Desde o início, você se vê dentro do filme e acompanha a angústia de Joy (Brie Larson, vencedora do Oscar e do Globo de Ouro 2016, em atuação brilhante) e do pequeno Jack (Jacob Tremblay, em atuação mais surpreendente ainda). Você tem essa percepção de proximidade talvez pela pessoalidade da narração, feita pelo doce menino, ou até mesmo por imaginar a dor de se viver dentro de um pequeno quarto de dez metros quadrados sem nem saber o que tem lá fora. Você se emociona quando Jack fala de Lucky, seu cachorro imaginário, quando ele dá “bom dia” para os objetos do quarto, quando olha para a janela no teto e vê apenas o azul do céu disfarçado de infinito. Não há mais nada além disso. Mas na cabecinha dele, sim. Há um mundo de sonhos longínquos, como na mente de qualquer criança. Só que, na de Jack, esse mundo é totalmente inalcançável. Até o dia em que ele se vê na obrigação de enfrentar, sozinho, o mundo novo – no plano, ele fugiria sozinho e pediria ajuda para socorrer a mãe.

Se para nós, que vivemos normalmente, sem cativeiros ou traumas, sair da zona de conforto é tão difícil, é tão amedrontador, imagine na cabeça de uma criança de 5 anos que não sabe mesmo o que vai encontrar pela frente. Dentro dessa lógica, não há paralelo melhor do que essa reflexão que um fotógrafo amigo meu, Diego Moreira, fez em uma rede social após ver esse filme. “‘O Quarto de Jack’ é uma analogia sobre cada um de nós. Vivendo em espaços confortáveis, amedrontados pelo que não conhecemos e, logo depois, surpresos por descobrir que tudo que gera medo, na maioria das vezes, pode ser bonito e surpreendente (…). Uma história sobre a vontade de fugir, a obrigação de ficar, o receio de arriscar, as consequências de escolher e a necessidade de se despedir”. Não é perfeito? Se você assistir ao filme, então, vai fazer ainda mais sentido.

Diariamente, somos obrigados pela vida a sermos melhores, a superarmos o que passou e seguirmos em busca de um sonho possível. Você, amedrontado em seu quarto escuro e frio, em sua opressão emocional, não vai a lugar algum. O bonito e o surpreendente, o novo e o admirável, estão logo ali, mas é preciso lutar para se chegar lá. E, às vezes, essa luta nem é tão árdua assim. Nossa cabeça é que borbulha demais… O mapa do tesouro das grandes descobertas da vida está disponível pra download aí em sua caixola, na pasta de gratuitos. Com a ajuda da analogia ali atrás, consegui desvendar os códigos desse mapa, e ele diz algo que está estampado na nossa cara: se a “vontade de fugir” é maior que a “obrigação de ficar”, não tenha esse “receio de arriscar”; pule as “consequências de escolher”, entenda a “necessidade de se despedir” e, assim como o pequeno Jack, abrace a alegria de viver. É assim nos filmes, e com certeza é melhor ainda na vida.

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