A insanidade feminina

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Ultimamente, tenho visto vários filmes antigos. Acredito que seja a fraca safra que o cinema atual vem apresentando – antes de um Oscar que será repleto de pérolas – que não está me estimulando a sair de casa. Numa dessas experiências caseiras, ataquei uma coleção do gênio Pedro Almodóvar que estava perdida na estante. Entre “Tudo sobre Minha Mãe”, “Volver”, “Má Educação” e “Fale com Ela”, fiquei com “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, justamente porque ainda não o tinha visto. E você percebe que é fã de um diretor quando, até mesmo num filme de 1988, consegue identificar características deliciosas que sempre o acompanharam. O longa, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1989, é uma comédia no melhor estilo pastelão melodramático, em que o diretor usa e abusa de cores, sabores e imprevistos dos anos 80.

O roteiro gira em torno de Pepa (Carmen Maura), que foi recentemente abandonada por seu amante, Ivan (Fernando Guillén), e se desespera tentando encontrá-lo. Prestes a entrar em colapso, ela recebe a visita de uma amiga, outra mulher afoita, que se apaixonou por um desconhecido e que, agora, descobre que o amado é um terrorista xiita. E ainda tem a ex-mulher de Ivan, que saiu de um hospital psiquiátrico e também está enlouquecida atrás do cafajeste. Isso sem contar a participação de Antonio Banderas, na flor da idade, que faz o engraçadinho filho gago de Ivan. É ou não é uma miscelânea completa para nenhum Almodóvar botar defeito?

Ele faz essa bagunça toda no roteiro, deixa o filme bastante divertido e consegue retratar como ninguém uma mulher louca, enciumada, dominada pela insanidade da perda. Assim como em outras obras, Almodóvar gosta mesmo é de mostrar a mulher em seu nível mais desvairado, raivoso, alvoroçado. E tem um tanto dessas por aí… Se elas não são assim visivelmente, te garanto que, por dentro, muitas se descabelam toda, só pensam em ter o domínio daquela situação descontrolada.

Mas o que fazer quando surge essa falta de controle? Sendo mais objetivo: o que fazer com uma mulher maluca que age assim? Na tela, é legal, é engraçado. O toque de humor e sátira de Almodóvar neste filme é exato. Uma das produções mais divertidas do espanhol. Mas e na vida real? Eu não consigo ver graça nenhuma. Na verdade, quem é assim sofre de um mal, não é mesmo? Eu sei que não é “privilégio” da mulher surtar e que ninguém é enciumado, desatinado ou tresloucado porque quer ou sai por aí se gabando por isso. Uma crise de ciúmes doentia ou não saber lidar com um pé na bunda são casos que devem ser tratados. Se o conselho da melhor amiga não está fazendo efeito, um especialista é algo tão necessário quanto uma algema no punho de um criminoso.

Não, eu não estou chamando ninguém de bandido! Nem sendo duro demais. Estou sendo realista. Em busca do autocontrole, ter humildade para saber que está errado é algo imprescindível. Fale sobre sua perda e sua dor, não se culpe, muito menos se isole. É importante perceber e expressar os sentimentos de raiva e amargura. Não adianta negá-los, poxa! Mas a revolta precisa ser menor que sua autoestima. E esse lance de que “nunca mais serei o mesmo” ou “nunca vou encontrar alguém como você” não cola! Tem muita gente interessante neste mundo, e todas essas transformações só aparecem para que você se enriqueça, ou melhor, se enrijeça. Pense bem: não é necessário ser uma sofrida mulher de Almodóvar ou esperar o fim do filme para ter um final feliz.

 

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