Aquela preciosa segunda chance

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Fui assistir ao filme “Mundos Opostos” (que, infelizmente, saiu de cartaz nesta semana; agora, só vendo pela internet mesmo)  e tive aquela boa e mágica surpresa que só o cinema proporciona. É que nada me levava a crer que eu me surpreenderia com esse longa. Primeiro: quando foi a última vez que viu um filme grego? Né? Segundo: além de estar em uma única sessão em um único cinema da cidade, fui ver as críticas na internet, e eram desanimadoras. Mas, gente… é aí que nos enganamos. Cinema é uma arte ampla, particular, de sensações individuais, de envolvimentos distintos. Garanto a vocês que alguns saíram daquela sala igualzinho ao crítico do Adoro Cinema, decepcionadíssimo, dando apenas uma estrela pro filme. Outros nem tanto, naquela margem de erro: nem pra mais, nem pra menos. Mas muitos – eu até reparei na feição do rosto de vários – saíram felizes, como eu, sendo influenciados pela ótima reflexão que o filme provoca.

A começar pela atualidade do roteiro: são três românticas histórias, com três casais de diferentes idades, que se entrelaçam no decorrer do filme e que acontecem em meio à crise imigratória grega. Os personagens vivenciam esse terrível momento socioeconômico do país, mas ainda estão conectados a seus deuses, em especial Eros, o deus do amor. A universitária Daphne (Niki Vakali) é salva de um estupro pelo imigrante ilegal sírio Farris (Tawfeek Barhom); o executivo Giorgios (Christopher Papakaliatis) encara a dissolução da empresa em que trabalha ao mesmo tempo em que se envolve mais do que o esperado com uma consultora estrangeira (Andrea Osvárt); e o historiador Sebastian (J.K. Simmons, ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante em 2014, pelo filme “Whiplash”, único mundialmente conhecido no elenco), que tenta se comunicar com uma senhora (Maria Kavoyianni) no supermercado e acaba se apaixonando.

Esse é o tipo de filme que te faz pensar e te acompanha para a vida. Não dá pra não se espantar com a gravidade da situação migratória na Grécia, com tantos sírios fugindo da forte guerra que envolve seu país e se deparando com um território assolado pela crise econômica – um momento desesperador para seus moradores, que vivem o desemprego, a violência, a descrença. Nós sabemos que isso está acontecendo, mas quando é demonstrado em um roteiro amarradinho, na telona do cinema, detalhando o dia a dia de quem chega ou de quem já vive lá, a indignação e a tristeza são ainda maiores. Mas há aquele fio de esperança. É o amor. Envolvente como sempre, o deus Eros aparece como um solucionador dos infinitos problemas que eles possuem. Que todos nós possuímos. Aliás, é sempre assim. Não só na Grécia, mas em qualquer lugar do mundo, a resposta para a crise é a busca do amor: alicerce firme que nos faz ter sorrisos fáceis em meio a tanta destruição intrínseca, que nos faz abrir os olhos e perceber que todos nós merecemos uma segunda chance.

Segunda chance essa que está presente em todo o filme – e obrigatoriamente deveria estar em toda a nossa vida. Um texto na internet despretensiosamente me mostrou essa verdade, assim como algumas cenas do filme, evidente também em inúmeros dos nossos momentos reais: “Um homem não é a roupa que veste, não é o lugar de onde veio, nem o que fez no passado. Conceituar uma pessoa pelo que ela já fez é não confiar na própria evolução do indivíduo. Há muito sobre a vida e sobre os erros que escapam ao conhecimento de todos”. Assim, não é lícito fazer julgamentos, não é válido não se permitir. Autorize-se a uma segunda chance. Não é porque você caiu que você deve continuar no chão. Um imigrante merece ser feliz em um novo território. O sol nasceu pra todos. Um desempregado pode conseguir um novo e digno ganha-pão. A sombra é para poucos, mas ela é sempre possível. Dois senhores devem, sim, fazer as pazes com o amor. Alguns mundos opostos aos nossos nos mostram tudo isso por meio do olhar. Lembre-se: nunca é tarde para recomeçar. Sempre é cedo para amar.

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