O doce gostinho do passado

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Gosto muito dos filmes de Woody Allen. De longe, ele é um dos meus diretores favoritos. A forma como ele narra a história, os figurinos, a trilha marcante, até aquele letreiro em ordem alfabética no início, tudo me agrada. E, pelo fato de ele ser um dos únicos que fazem questão de lançar categoricamente um filme a cada ano, nem sempre suas produções são completos acertos. Dos últimos filmes lançados, nenhum bate “Meia-Noite em Paris” (2011) e “Blue Jasmine” (2013), mas não dá pra esquecer de “Match Point” (2005) nem de “Vicky Cristina Barcelona” (2008), de outra boa fase do diretor, e de tantos clássicos, como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), “Manhattan” (1979), “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985) e “Celebridades” (1998), alguns dos meus preferidos. É notável que todos têm sua qualidade individual, mas alguns ganham no roteiro de uma forma única e avassaladora.

E é justamente nesse ponto que seu último filme, “Café Society” não se destaca tanto. A produção não nega ser de um diretor maduro, que ainda se arrisca em novos formatos e novos caminhos técnicos, e busca, segundo alguns críticos, ser um de seus melhores longas dos últimos 20 anos. Porém, achei o roteiro abrangente demais, com todos aqueles temas recorrentes que Allen sempre coloca no mesmo barco, como família, religiões, ética, assassinatos e infidelidade. Tudo bem que esse é o primeiro longa rodado em digital pelo diretor. No entanto, o romance morno do início do século XX parece ter sido tirado da sua pasta antiga de filmes não realizados e concluído sem muita euforia. A trama se passa nos anos 30 e traz o jovem Bobby (Jesse Eisenberg) mudando-se de Nova York para Hollywood, onde começa a trabalhar com o seu tio Phil (Steve Carell), famoso agente de celebridades. Logo, Bobby se apaixona por Vonnie (Kristen Stewart), dando início a mais uma ciranda de amores típicos de seus romances. Sobre os atores, Eisenberg é, realmente, a versão do alter ego jovem de Allen, e isso me incomoda um pouco. Fala sem parar, irrita, imita bastante o ator/diretor e não tem química alguma com Kristen, que, pra mim, ainda não perdeu o ar de Bella, do “Crepúsculo”, até hoje.

Poxa, quem lê assim logo pensa: “Nossa, ele não gostou do filme mesmo!”. Mas não. Existem muitos pontos positivos a serem citados. A fotografia de Vittorio Storaro, em tom pastel, para homenagear a nobreza e o glamour de Hollywood, e em cinza-azulado, para descrever a alta sociedade de Nova York, é algo lindo de se ver. A narração de Woody Allen, que desde a “A Era do Rádio” (1987) não surgia sem que ele aparecesse no filme, é instigante e saudosista. A união de comédia e drama pontuada por fatos e pessoas que remetem a sua filmografia é bem interessante. E a mensagem que o filme passa é inspiradora.

“Sonhos são sonhos”, diz um dos personagens. Um crítico surge e complementa assim: “‘Café Society’ é mais uma história sobre como as paixões acabam gerando memórias, ao mesmo tempo agradáveis e dolorosas, além de tornarem as pessoas mais fortes”. O protagonista Bobby sofre disso: são essas memórias que vão nos fazer cobrar das nossas escolhas pessoais em certos momentos da vida. Às vezes, nos frustramos e encontramos outro caminho bem a nossa frente. O que não dá pra fazer é ficar pensando como estaríamos se a vida tivesse oferecido outro caminho e acabar preso àquele fato passado. Precisamos sempre daquela forcinha para nos desvencilhar, pois, assim como o Bobby, muitas vezes é no presente que temos tudo o que precisamos – até mesmo a lista completa dos filmes de Woody Allen disponível na internet.

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