Queria sair deste aquário 


Foi bem no dia em que Michel Temer tomou posse como presidente da República que o filme “Aquarius”, do diretor Kleber Mendonça Filho, fez sua estreia em todo o país. Apesar de não se tratar de um longa político, ele atraiu toda essa energia do Planalto como forma de protesto não só da equipe de produção – que se manifestou contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no Festival de Cannes, em maio deste ano, e vem dando entrevistas engajadas desde então –, como também de anônimos espectadores, que, ao final das sessões nos cinemas, o aplaudem e gritam incansáveis “Fora, Temer!”. Há também o enfoque da imprensa internacional, que compara a protagonista Clara, vivida por Sônia Braga, com a ex-presidente destituída do cargo. Na minha mais pura e singela interpretação, parece ocorrer uma metáfora da ficção com a realidade por aí. Mas Mendonça Filho nega que o roteiro, escrito há dois anos, teve alguma inspiração na política brasileira. Ele até disse ao portal Uol na semana passada: “Não teria como adivinhar a situação em que o Brasil está imerso hoje. Mas quando você pensa muito sobre o país onde vive e se aplica a tentar analisar essa sociedade, as relações que existem entre as pessoas e como o mercado força as pessoas, você capta coisas no ar”.

No longa, Clara mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da avenida Boa Viagem, na bela capital pernambucana Recife – cenário de tantas produções atuais, como a minissérie “Justiça”, da Globo, e do filme “Desculpe o Transtorno”, com Clarice Falcão e Gregório Duvivier, a ser lançado nos próximos dias. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e de livros, Clara enfrenta as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo e luxuoso empreendimento (símbolo efêmero do capitalismo devastador de direita, nas entrelinhas do roteiro).

Em certos momentos de um filme sensível e musical, que carrega consigo a força e a sensibilidade de uma mulher guerreira e cheia de princípios, juro pra você que eu fiquei envergonhado. Como não gosto de vestir a camisa verde-amarela, muito menos a vermelha (queria mesmo é que meu traje fosse só o branco), às vezes, quando havia uma cena racista ou que indicava um preconceito exacerbado – claro que da parte da construtora de elite com a protagonista representante do povo –, eu não me sentia confortável me espelhando em Clara. Não que ela não me representasse, mas o que está por trás dela, principalmente fora da tela, é que não faz parte de mim. E, com certeza, de muitos por aí…

Em meio a tantas coincidências políticas entre o lançamento de “Aquarius” e o impeachment da ex-presidente, surge um espectador como eu, que não está afim de discutir esse tema nem definir de qual lado está. Quer apenas assistir a uma boa produção nacional e aplaudi-la, mesmo que mentalmente (nada escracho como as tais incômodas palmas no final de uma sessão). Na verdade, pra mim, não existe um lado a seguir, a clamar, a lutar. Existe, sim, um país que está indo cada vez mais para o fundo do poço, e nós, os atuais moradores dessas profundezas, deveríamos é nos unir, em vez de nos engalfinhar, provando infundadamente quem é o bem e quem é o mal. Ah, e não venha me dizer que, num momento como este, o que “preciso” é me manifestar. Não, o que preciso mesmo é me safar!

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