Investigação com emoção 

MichaelKeatonMarkRuffaloSpotlightEu, como jornalista e amante das letras, fui assistir ao filme “Spolight – Segredos Revelados”, do diretor Tom McCarthy, bem ansioso e curioso, tudo porque a produção é uma grande homenagem ao jornalismo investigativo. No longa baseado em fatos reais, obviamente, o jornal “Boston Globe” denuncia a conivência da Igreja Católica – e do sistema judiciário da cidade – para com o abuso de menores praticado por sacerdotes, acusando quase uma centena de padres locais e bagunçando o cenário religioso norte-americano em 2001. Uma senhora pauta investigativa, inclusive vencedora do prêmio Pulitzer na época, que motiva os personagens de Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber e, principalmente, o empolgado repórter do ator Mark Ruffalo, que dá ênfase e segura eximiamente o filme – atuação digna de reconhecimento e de sua indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Michael Rezendes, seu personagem, é daqueles sujeitos extremamente apaixonados pelo que faz, movido pelo tesão da descoberta, pela paixão da aprendizagem e da conquista diária. Todos nós deveríamos ser como ele…

Apesar do roteiro instigante e do cenário muito bem retratado do pós-Onze de Setembro, que vão desde menções precisas do início da internet até detalhes dos celulares antigos, disquetes em cimas das mesas e uma redação com computadores gigantescos da época, achei o longa um pouco lento. Como jornalista, repito, acho ótimo esse tipo de produção, pois me estimula e retrata o meu ambiente. Mas senti que as cenas iam passando arrastadas demais. A investigação, por mais séria e minuciosa que seja e por se tratar desse mundo intocável da Igreja Católica, custou a se desenvolver. E juro pra você que, no fim do filme, ainda achava que estava faltando algo a ser explicado – olha que suntuosa incoerência.

Mas o filme é ótimo, entende o que quero dizer? Tanto que foi indicado a seis categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original, o que já fala muito por si só. A sede por respostas da equipe e o sentimento de revolta que explode ao nos atinarmos que esse tipo de atrocidade acontece não só em Boston, mas no mundo todo, são sensíveis olhares do diretor e do roteirista Josh Singer que valorizam e qualificam o longa que pode, sim, virar um clássico do jornalismo no cinema. E é nesse patamar que ele se engrandece. Já parou pra pensar no poder do cinema, ou no poder do jornalismo, que são extremamente capazes de balançar o ostentoso poder da Igreja? É somente por meio desses meios que os assoberbados pilares religiosos podem ser estremecidos. E é tão somente por homens como o fictício repórter Rezendes, ou o real diretor McCarthy, que essas ideias desvirtuosas da sociedade podem ser difundidas. E isso é instigante e fascinante.

O fascínio da vida está em buscar respostas para as indignações do ambiente ao nosso redor. O que seríamos de nós sem o entusiasmo, sem o interesse e a emoção, sem a capacidade de nos mover e alterar o nosso comportamento para, assim, tentarmos mudar o cenário insólito que nos incomoda. Ao sair do cinema, não ficou martelando na minha cabeça em como o filme podia ter sido mais ágil. A aflição de um personagem específico, em querer e poder mudar as circunstâncias a sua volta, me fez balançar. Não precisamos ser do cinema nem do jornalismo. Todos nós temos esse ardor em alegria, essa animação em demasia, essa busca para curar uma agonia. Resta achar em si esse arrebatamento de um repórter apaixonado, a procura por segredos revelados, a eterna satisfação dos nossos anseios obstinados.

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